A Matemática da Criatividade: Generalistas vs. Especialistas


A procura e disputa por talento entre organizações é, tipicamente, ditada pelo tipo de problemas que estas enfrentam. Se esses problemas exigirem mais conhecimento e criatividade vertical, irão procurar especialistas. Se exigirem mais conhecimento e criatividade horizontal, irão procurar generalistas.


A metáfora dos copos de conhecimento

Gosto de pensar no conhecimento como vários copos que se podem encher. O número total de copos representa as áreas de conhecimento na horizontal. O nível de enchimento de cada copo representa a profundidade de conhecimento em cada área.

Seguindo esta lógica, um especialista tende a ter dois ou três copos muito cheios, enquanto um generalista tende a ter mais copos parcialmente cheios.

Pensando agora nas implicações que isto tem no modo de operação

Se considerarmos criatividade como a capacidade de reconhecer padrões e interligar diferentes pontos de conhecimento, então o especialista tenderá a ser mais criativo dentro dos seus verticais, enquanto o generalista tenderá a ter uma criatividade mais horizontal.

Juntando a esta criatividade o bom gosto (1), ou seja, a capacidade de julgamento, vamos ter modos de operação bastante diferentes entre ambos os perfis, uma vez que ambos tendem a criar e selecionar caminhos bastante distintos para a resolução do mesmo problema.


Vejamos um pequeno exemplo matemático acerca de ambos os perfis.

O Especialista tem 2 copos com 10 níveis de conhecimento cada.
O Generalista tem 5 copos com 4 níveis de conhecimento cada.

a: número de copos.
p: nível de preenchimento de cada copo.

Métrica Fórmula geral Especialista Generalista
Conhecimento total a × p 20 20
Combinações dentro de áreas semelhantes a × C(p, 2) 90 30
Combinações entre áreas diferentes C(a, 2) × p2 100 160
Rácio profundidade / horizontalidade p / a 5 0.8
% interdisciplinar C(a, 2) × p2 C(a × p, 2) 52.63% 84.21%
% dentro da mesma área a × C(p, 2) C(a × p, 2) 47.37% 15.79%

Naturalmente, a fronteira que separa objetivamente um especialista de um generalista é difícil de definir. Sendo que, na prática, o humano consegue identificar mais facilmente o perfil especialista.

Como seria de esperar, mesmo com a mesma quantidade total de conhecimento, o perfil generalista cria mais possibilidades de combinação entre áreas diferentes, enquanto o perfil especialista concentra mais combinações dentro da mesma área.

Idealmente existiria um perfil com todos os copos completamente cheios, mas a raça humana não está concebida para isso. A nossa maior hipótese de nos aproximarmos desse cenário passa pela combinação entre diferentes perfis.

Imaginemos uma tribo com 150 pessoas. Cada pessoa sabe resolver determinados problemas. Algumas terão maior criatividade vertical, outras maior criatividade horizontal. Sozinha, uma pessoa talvez consiga sobreviver, mas em conjunto, a tribo consegue resolver muito mais problemas porque o conhecimento começa a combinar-se.

"Se eu conhecer 10 formas de fazer armadilhas e outra pessoa conhecer 10 sítios bons para as colocar, juntos temos 100 combinações possíveis. Se outra pessoa souber conservar carne, o número de possibilidades continua a aumentar para sobrevivermos ao inverno (...)" (2).

Disto surge um problema, porque estas combinações só acontecem se existir ligação entre as pessoas. Se eu não souber que alguém possui determinado conhecimento, nunca vou conseguir combiná-lo com o meu (3). Cabe então às organizações conhecer, aproximar e proporcionar ambientes que potenciem estas combinações.


Que impacto terá a AI nestes perfis?

Aos meus olhos a AI está claramente a criar uma aproximação entre especialistas e generalistas. Um especialista consegue hoje cobrir domínios adjacentes sem precisar de contratar ajuda externa. E um generalista com boa capacidade de prompting consegue produzir trabalho que anteriormente exigia um especialista (4).

No fundo, acabamos por ter uma redução do custo da competência e isso faz com que o trabalho de execução que antes exigia colaboração profunda entre várias funções seja cada vez mais rápido e mais barato.

Por esta ordem de ideias, o especialista torna-se fundamental pela capacidade de julgamento profundo. Pela experiência e, principalmente, pela capacidade de perceber quando a AI está errada dentro do seu domínio.

O generalista, por sua vez, vai agregar valor através da orquestração dos sistemas. Para isso, vai ter de saber fazer bem a desconstrução do problema entre diversos domínios para que os sistemas os possam resolver.

A verdade é que, se pensarmos bem, a AI não vai encher o copo de ninguém, ela apenas nos permite aceder aos restantes copos. Até agora acreditei que no futuro talvez existisse um perfil que resultasse da combinação do especialista e do generalista, mas a verdade é que isso é o resultado do acesso atual de AI a tender para o infinito. Para as organizações o que isto significa é que quem não montar os sistemas que combinem o conhecimento através da alavancagem da AI vai ficar para trás na corrida.

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Referências
(1) Virgílio Bento — Some Thoughts on Taste
(2) Pedro Domingos — Can AI Help Build a Collective Human Intelligence?
(3) Num estágio meu, procuraram ajuda externa para resolver um problema simplesmente porque não sabiam que eu possuía o conhecimento necessário.
(4) Lenny's Podcast — How we restructured Airtable's entire org for AI